Cicatrizes iguais… e superação

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Encontrei-me hoje com João Estrella (autor e real personagem do livro e filme “Meu nome não é Jhonny”). Eu o havia convidado para participar do debate que a Editora Rocco vai promover no lançamento de meu livro dia 18 de abril, na Livraria da Travessa, Leblon, então marcamos um almoço para trocarmos ideias e para que eu lhe falasse de meu livro.
Sempre quis conhecê-lo, pois quando vi o filme, mesmo sendo uma história bastante diferente da minha, eu entendi sua trajetória e me identifiquei muito com ele em alguns pontos. “Mais uma vítima da falta de limites dos pais”, lembro-me que fiquei pensando nisso ao sair do cinema e senti muita pena dele.
Para o debate de meu livro, pensei em chamar um médico especialista em dependência química, além de uma pessoa que de fato tivesse passado por esse problema. Durante a reunião na editora para decidir sobre o lançamento, o nome de João Estrella veio em minha cabeça. Ninguém melhor do que ele, que viveu esse drama, conseguiu superar e também teve sua história publicada.
Ele aceitou o convite e por isso fomos conversar. Quando nos sentamos e começamos a falar, eram tantos assuntos, tantas vivências parecidas, tantas dores, emoções e experiências iguais, que a nossa conversa parecia não ter mais fim.
Marcamos outro dia para falar mais especificamente do debate, porque nesse primeiro encontro não conseguimos chegar a esse assunto! Um falava “atropelando” o outro, pois eram tantas coisas que ambos queriam dividir, que não conseguíamos concluir um só assunto…
Adorei conhecê-lo. Um ser humano sensível, carinhoso, coração enorme, carismático e inteligente. Alguém muito sofrido, assim como eu, que sofreu muito e deu a volta por cima. Mas, é claro, as cicatrizes continuam na pele e na alma.Uma pessoa profunda e não rasa como a maioria das pessoas que conheço.
Logo que começamos a falar de momentos de dor que passamos, cada um com sua história, ambos nos emocionamos. Chegamos a nos abraçar, e ali eu tenho certeza de que ele também sentiu que aquela emoção era de verdade. E que eu não estava apenas dizendo: “Nossa! Imagino como deve ter sido!” – Não, não, eu sabia, eu também havia sentido algo semelhante. Nós sentimos na pele o que o outro falava ali.
Falamos também sobre as dificuldades, tanto para ele quanto para mim, de contar nossa história em publico. A decisão de escrever um livro. As dificuldades internas e com os familiares. Mas tanto ele quanto eu nos mantivemos fortes e decididos, pois sabíamos que seria importante para nós e para muitos que pudessem nos escutar e, a partir daí, buscar um outro caminho longe das drogas. Eu dando o exemplo de como a droga faz mal para a família ao redor do doente. e ele falando do mal que a droga fez à vida dele.
 
Quando cheguei em casa, após conversar com ele durante várias horas, comecei a chorar. Mexeu muito comigo, mais uma vez, falar sobre minha dor e escutar o que ele sofreu. 
João Estrella tinha tudo. assim como eu. Ou melhor, quase tudo. Faltou algo extremamente importante na vida dele, na vida de meu pai e de minha família: LIMITES. Sem limites a gente perde as referências e não chega a lugar algum.
Beijos, Isa.