Narcotraficantes e Narcotraficados

A guerra da polícia com os narcotraficantes, como se vê todo dia nos jornais, obriga a algumas reflexões. Apesar de estar muito mais bem municiada a vitória não se define a favor da polícia. E ainda tem o problema das balas perdidas. Os narcotraficantes estão estrategicamente mais bem posicionados – isso logo se vê – no alto dos morros. Mas a definição geográfica desta supremacia não resume a questão. Talvez, tenha muito mais a ver com a supremacia social dos narcotraficados, dos que compram e consomem as drogas. O uso de drogas é um fenômeno universal, milenar e aparentemente inextinguível. A toxicomania, no entanto, não é uma decorrência direta da riqueza de que se é possuidor. Há pessoas ricas que não são drogaditas. Por outro lado, nem todas as drogas produzem exatamente os mesmos efeitos. Há entre os consumidores uma certa seletividade. Mas há também uma certa unanimidade de resultados com diferentes drogas, sejam elas de absorção oral, nasal ou parenteral. Todas as drogas- e aqui se inclue o álcool, em todas as suas apresentações- geram invariavelmente um sentimento de bem estar e um aumento das fantasias onipotentes.Ao se sentir “poderoso” o drogadito se permite a satisfação de todos os desejos, bem como a realização de todos os prazeres ao seu alcance, sem o cerceamento interno das proibições morais.É uma vitória sobre o super-ego, à qual se quer sempre retornar.
Aos narcotraficados, viciados na realização de saborear o néctar e o manjar dos deuses, corresponde a realização onipotente do poder sem limites, que os narcotraficantes perseguem quando se atribuem o direito de matar quem não os remunera de imediato, ou quer proibí-los de vender sua droga. A drogadição e a narcotraficância não são meros vícios. São uma “concepção de mundo” que não aceita a fragilidade e o desamparo da condição humana. Não dá para esperar pela realização post-mortem das promessas religiosas e nem para acreditar nas ideologias políticas , que também prometem um mundo paradisíaco para mais tarde. Não dá para esperar tanto. Tem que ser aqui e agora: é na base do “fui”.
Dr. zusman