As famílias codependentes precisam de ajuda

Bom noite  queridos leitores,

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Saindo de casa ontem de tarde, vi três pivetes assaltando senhoras. Eram meninos, deviam ter não mais que nove anos, dez anos no máximo. O mais impressionante é que as pessoas já não se espantam com esses fatos. Crianças pelas ruas, assaltando para sustentar o vício do crack. Uma praga social, que está levando até crianças a cometerem crimes, antes de levá-los à doença e à morte precoce.

– O que fazem com esses meninos? Eles ficam presos? São levados a algum tratamento? – perguntei a um policial.

– São presos, mas como são menores de idade, logo saem e voltam ao vício – respondeu o policial. – Não temos onde colocar todos eles para um tratamento sério.

É terrível a imagem de uma cracolândia, um verdadeiro “lixão” humano onde os viciados se reúnem para consumir drogas. E é inacreditável que o governo não consiga acabar com isso, vigiar esses lugares, recolher todos, criar condições para um tratamento coletivo contra essa praga.

Sabemos que as drogas são uma verdadeira tragédia em todas as classes sociais. Já vi adolescentes ricos que, ao invés de serem punidos, eram mimados por seus pais. Convivi durante muitos anos com a doença de meu pai, e custei a perceber que todos em minha casa sofríamos os malefícios da droga, mesmo sem consumi-la. Na minha família todos éramos codependentes. Assim como em todas as famílias de dependentes químicos.

Se você, que está lendo agora este blog, não tem um familiar no crack, levante as mãos para o céu e agradeça a Deus. Imagine como sofrem as famílias que são vítimas da codependência.

Por experiência própria, posso lhe dizer que é um horror. Uma dor que nem sei como expressar em palavras. Não há nada mais triste do que ver uma pessoa que você ama morrer aos poucos. Fora as alucinações e a agressividade que essa pessoa passa a ter. O dependente químico torna-se agressivo, sem pudor, perde toda a noção do que é certo ou errado. Passa por cima de todos e de si próprio. Vive para a droga, e o crack é uma das piores que existem.

O problema da codependência é que as famílias que estão ao redor também vivem em função da droga, só que de outra maneira.

É impossível não viver isso se alguém de nossa família é viciado em crack ou cocaína. Você acaba se envolvendo de alguma forma.

Eu, sendo filha de um dependente químico hoje em recuperação, sei muito bem o que estou falando. Senti essa dor na pele, na alma. Hoje estou melhor, menos dependente do problema, e consigo falar abertamente para ajudar a quem precisa.

As famílias codependentes precisam de ajuda, às vezes até mais do que o doente. Sei como é importante conversar com alguém, falar dos nossos problemas, ouvir conselhos, receber carinho e apoio. Quem tem alguém usando droga em sua família, dentro de sua casa, fica confuso, sem saber o que fazer. Alimenta sentimentos de pena, culpa e medo. O dependente químico é muito manipulador e nos faz achar que o melhor para ele não é interná-lo, mas sim deixá-lo viver como ele quer. Só que nós sabemos para onde a droga leva.

O crack é uma droga tão pesada que mexe com toda a estrutura familiar. Na classe alta, a única vantagem é quando, o doente é internado e recebe tratamento: ele tem a sorte de ter uma boa clínica e bons remédios. Nas classes mais baixas, infelizmente não se tem um tratamento de qualidade.

Isso é triste. Afinal somos todos iguais! Como essas pessoas vão se tratar? Que esperanças elas podem ter? E seus familiares? Onde buscar ajuda? A ajuda começa dentro de nós, mas precisamos ter apoio e medicação. Não se para de usar crack facilmente, como se para de comer um chocolate! É um problema sério!

A internação muitas vezes é necessária, mas não é a solução. Ela apenas serve para salvar vidas e desintoxicar. Acho necessária e importante a internação compulsória. Porém, a decisão de mudar tem que partir da própria pessoa, senão ninguém e nada o mudará. O doente tem que parar de pensar somente em si e se preocupar com sua família. Se não ama a si mesmo o suficiente para parar com as drogas e ter uma vida digna, que faça isso por seus filhos. Mas que faça. O caminho para quem usa crack, seja na classe A ou D, é o mesmo: internações, prisão, doenças psíquicas e morte. No fundo, todos vão para o mesmo caminho. A menos que se libertem da droga.

Se você conhece alguém que use drogas, ajude-o a procurar tratamento, mas jamais deixe de lado a sua vida em função dele. Fiz isso por muitos anos e não adiantou, eu só me prejudiquei. Não me arrependo, mas posso lhe aconselhar a não fazer o mesmo. Ajude até onde você pode. Dê um limite à sua disponibilidade. Se não fizer assim, todos acabam ficando ainda mais doentes. E se isso acontecer em sua família, como é possível a um cego ajudar outro cego? Não pode, né?

Beijos, isa

 

  • http://www.facebook.com/leonardo.fagafilho Leonardo Faga Filho

    A escalada das drogas é um fato assustador e é o maior problema
    desta década. Enfrentá-la só é possível com informação correta, prevenção
    e recuperação. A opinião pública é fundamental. Somente escancarando a
    realidade para mudá-la. Ninguém pode dizer: “Esse problema não é
    meu”, pois esse problema já é nosso! Está de parabéns a autora do
    blog

  • Keila

    Muito legal ver sua hstoria contada da forma vivida por um codependente, tambem sou, meu marido está em recuperação e há um ano e dois meses parou com alcool e cocaína, sempre achei que eu precisava mais de tratamento do que ele, porque eu vivia em funçao dele, meus filhos, como fomos afetados pela dependencia dele, um sofrimento sem fim, é muito dolorido, so quem passa sabe o tamanho da dor, pois ele nao conseguia enxergar o que estava causando a nós, estava preso dentro da bolha criada por ele. mas graças a Deus, hoje ele é exemplo de superação e fé.Parabéns!!! pois muito se preocupam e falam dos viciados, e se esquecem dos codependentes.

  • lemenescal

    Infelizmente as políticas públicas no Brasil não contemplam os desfavorecidos, nem na saúde, nem na educação….. Estes ficam à margem de qualquer possibilidade…

    http://www.leticiamenescalpsicologa.blogspot.com.br/2013/07/as-vezes-o-amor-nao-e-o-bastante-co.html